Investigação sobre uso de dados sigilosos expõe nova frente de crise na segurança do ES
Um inquérito que apura o uso indevido de dados sigilosos por agentes públicos no Espírito Santo entrou em nova fase e já está sob análise do Ministério Público do Estado (MPES). O caso envolve policiais civis — entre eles um delegado — e tramita sob sigilo judicial.
A investigação foi concluída pela Polícia Civil e encaminhada ao Poder Judiciário. A partir dessa etapa, cabe ao Ministério Público avaliar o material e decidir sobre eventual denúncia ou novas diligências.
Em nota, o MPES confirmou o recebimento do inquérito e informou que o caso está sob análise da Promotoria de Justiça Regional de Investigação Criminal e Controle Externo da Atividade Policial. O órgão, no entanto, não detalhou o conteúdo da apuração.
“O caso tramita sob sigilo e, por essa razão, não é possível a divulgação de outras informações no momento”, informou o Ministério.
A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio da Corregedoria-Geral, também confirmou o envio do inquérito à Justiça e destacou que não houve afastamento ou transferência de servidores até o momento. Segundo a corporação, já foi instaurado procedimento administrativo para apurar eventuais irregularidades.
Histórico de embates
A investigação ocorre em meio a um histórico recente de conflitos envolvendo um dos citados no inquérito e a cúpula da segurança pública estadual.
Ex-subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública, o delegado Romualdo Gianordoli foi exonerado do cargo em 2025 após divergências internas. À época, o governo do Estado afirmou que a saída ocorreu por problemas de relacionamento e pelo uso de informações da função para fins considerados inadequados.
O próprio delegado, por sua vez, sustenta que sua exoneração teve relação com o avanço de investigações sensíveis ligadas ao crime organizado, no contexto da chamada Operação Baest.
O episódio marcou o início de uma crise pública, com troca de acusações entre o delegado e integrantes do governo. Em declarações posteriores, ele chegou a afirmar que investigações conduzidas à época atingiam interesses relevantes, incluindo agentes públicos e empresários.
Por fim, no início deste mês de abril, o delegado José Darcy Arruda deixou a chefia da Polícia Civil do Espírito Santo após mais de sete anos no comando da instituição. A exoneração aconteceu em meio a uma crise na Polícia Civil capixaba, marcada por investigações e denúncias envolvendo membros da corporação.
Declarações e investigação interna
Em janeiro deste ano, a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Civil informaram que o delegado poderia responder administrativamente e até judicialmente por declarações feitas nas redes sociais.
Na ocasião, ele publicou vídeos comentando sua saída do cargo e apresentando sua versão sobre os bastidores da segurança pública. Em resposta, o governo classificou as falas como falsas e afirmou que ele deveria comprovar as acusações.
As manifestações levaram à abertura de procedimento na Corregedoria da Polícia Civil, que segue em andamento.
Repercussão política
O caso também ganhou dimensão política ao longo dos últimos meses. O delegado passou a ser citado em debates públicos sobre segurança e chegou a ter o nome ventilado em articulações eleitorais.
Mais recentemente, ele se filiou a um partido político e é apontado como possível candidato nas eleições de 2026.
Investigação segue sob sigilo
Apesar do avanço do inquérito, não foram divulgados detalhes sobre quais dados teriam sido acessados ou utilizados de forma irregular, nem sobre a conduta específica atribuída aos investigados.
Casos envolvendo uso indevido de informações sigilosas são considerados sensíveis, especialmente quando relacionados a agentes públicos, por poderem comprometer investigações e a própria estrutura de segurança do Estado.
Com o processo sob sigilo, os próximos desdobramentos dependem da análise do Ministério Público e de eventuais decisões do Judiciário.
